Pandemia acentua abismo na educação, mas favorece modernização do ensino

01/12/2020 15:23

Pandemia acentua abismo na educação, mas favorece modernização do ensino
METROPOLES • 30 de novembro de 2020

Fonte da Notícia: METROPOLES
Data da Publicação original: 28/11/2020
Publicado Originalmente em: https://www.metropoles.com/brasil/educacao-br/pandemia-acentua-abismo-na-educacao-mas-favorece-modernizacao-do-ensino


Com o fim de um ano letivo atípico, escolas públicas e particulares do país começam a avaliar o impacto da pandemia do novo coronavírus no processo de aprendizagem dos alunos. A educação está entre os setores mais prejudicados pela paralisação das atividades – medida adotada para conter o avanço da Covid-19. Imerso em crise sem precedentes, o ensino brasileiro foi forçado a se reinventar e a buscar, em ferramentas que já existiam, alternativas capazes de suprir a ausência do contato pessoal do professor com os estudantes.

Educadores ouvidos pelo Metrópoles avaliam que a pandemia forçou a educação brasileira a reconhecer a importância da tecnologia no processo de aprendizagem, mas também serviu para acentuar o “abismo” existente entre as redes pública e particular de ensino.

Na avaliação dos especialistas, os colégios privados tinham mais recursos para buscar soluções rápidas e garantir o ano letivo, enquanto a rede pública levou meses para se adaptar a um modelo de aprendizagem mediado pela tecnologia, de forma remota.

A demorada resposta da rede pública para traçar um modelo emergencial de ensino está diretamente ligada ao enorme desafio travado pelas secretarias de educação em conseguir achar um canal capaz de atingir o maior número possível de alunos.

Quem via a internet como solução rápida para o problema se deparou com uma assustadora realidade. Segundo estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tem 6 milhões de estudantes, da pré-escola à pós-graduação, sem acesso domiciliar à internet em banda larga ou rede móvel 3G/4G.

Do total, 5,8 milhões são alunos da rede pública de ensino. Há ainda 1,8 milhão de estudantes que até possuem internet, mas não têm equipamentos para usá-la. Negros, indígenas, moradores de áreas rurais e brasileiros de baixa renda são os mais prejudicados pela dificuldade de acesso do serviço.

Diante da desigualdade do acesso à internet no país, a alternativa encontrada pelas secretarias de educação foi diversificar os canais de aprendizagem, fazendo o conteúdo educacional chegar, também, pela televisão, em canais abertos, e por meio de materiais didáticos impressos, que eram distribuídos nas instituições de ensino.
Abismo educacional

Doutor em educação pela Universidade de Reading, na Inglaterra, o pesquisador Afonso Celso avalia que, mesmo com os esforços, as estratégias traçadas para mitigar os prejuízos da pandemia no ensino brasileiro não foram suficientes e demonstram “cultura nacional de despreparo”.

“Há muito tempo já se falava de exclusão tecnológica na educação brasileira, isso não é nenhuma novidade. Esta pandemia apenas serviu para explicitar situação que já conhecíamos, de uma desigualdade social reverberada no ensino”, frisa.

“Houve, no entanto, radicalização da percepção sobre a exclusão digital, e isso só ocorreu porque a escola pública parou. E foi aí que perceberam a inexistência de estrutura, dispositivos e equipamentos adequados para garantia do acesso do aluno ao material de ensino”, acrescenta.

Para Afonso Celso, a pandemia acentuou o “abismo” entre a rede pública e a particular de ensino. O educador avalia que o despreparo das autoridades para lidar com a situação provocará atraso significativo no desenvolvimento de vários estudantes. “Estamos falando de roubo cognitivo, mas escola não é só cognição, é educação socioemocional também”, pondera.

“Observo uma vaga e generalizada preocupação em relação à inclusão dessa parte da população mais pobre no sistema de educação on-line e no conhecimento digital. Mas projeto mesmo não há nenhum, não há nenhum projeto de inclusão digital desses estudantes”, salienta o pesquisador.

O doutor em educação pela Universidade de Reading projeta que os próximos anos serão pautados por uma “política de redução de danos”. “Vai haver uma tentativa de condensar dois anos letivos em um. O que foi perdido já era. Tragédia de grandes proporções, cuja solução está na inclusão digital”, assinala.

O entendimento de Afonso Celso é o mesmo defendido por colegas da área. Professora de pós-graduação em educação da Universidade Católica de Brasília (UCB), Priscila Kohls dos Santos acredita que a demora em formular uma resposta eficiente para o problema explicita o despreparo do Estado com o cenário educacional brasileiro.

“Se a gente for comparar, a educação privada levou dias para se reorganizar e se adaptar. As escolas da rede pública levaram seis meses para conseguir dar conta de todos os alunos, bem como dos professores, que não estão acostumados com as tecnologias digitais na prática docente e, por isso, precisam de treinamento específico”, explica.
Modernização do ensino

Defensora dessa modalidade de ensino, a docente acredita que o único legado positivo da pandemia para a educação é o entrosamento de alunos e professores com a tecnologia.

“A pandemia nos proporcionou um choque de realidade. Precisamos aproximar o dia a dia dos alunos com a sala de aula. Estamos falando de estudantes imersos em tecnologia, que encontram dentro da classe escolar um ambiente diferente do vivenciado em suas rotinas. A pandemia nos mostrou que não há outra saída”, ressalta Priscila Kohls.

Pesquisa Datafolha encomendada pela Fundação Lemann aponta que 73% dos educadores brasileiros se dizem mais preparados e pretendem usar ferramentas tecnológicas mesmo após a pandemia. O estudo ouviu 1.005 professores da rede pública entre setembro e outubro deste ano.

No entanto, a boa vontade dos docentes em modernizar o ensino brasileiro esbarra na falta de infraestrutura das escolas administradas pelo Estado. Para 45% dos entrevistados, a conexão de internet da rede pública não permite melhorias na aula. Outros 30% nem ao menos possuem o recurso digital na unidade em que trabalha.
Professor valorizado

Priscila pontua ainda outro impacto da crise no ensino: “Reforçou a importância da presença física, do contato e da necessidade do educador. Isso foi revalorizado. A questão da profissão docente ainda é bastante desvalorizada, mas muitos se deram conta do impacto do professor ao lado do aluno na aprendizagem”, completa.

Mãe de duas crianças em idade escolar, a empresária Célia Santos, 48 anos, também entende que a ausência do contato próximo entre educador e aluno pesou negativamente. “Houve um esforço muito grande por parte das instituições de ensino e dos professores, que têm se desdobrado. Mas, na modalidade a distância, a gente vê o quanto é difícil”, destaca.

“Fica uma lacuna. A falta que faz o olho no olho do professor com o aluno é enorme. Ainda continuo acreditando que o ensino presencial tenha um poder diferente sobre a criança, para que ela assimile melhor o conteúdo, que desenvolva maior disciplina em relação aos estudos”, defende a empresária.

A psicopedagoga Deise Boechat explica que a figura do docente é imprescindível para o aprendizado, principalmente dos alunos das etapas iniciais. “Quanto mais nova é a criança, mais importante a presença do professor nesse contato. Crianças precisam de todo um apoio no âmbito sensorial e afetivo para avançarem na parte cognitiva. O educador faz toda diferença no processo”, enfatiza.

Segundo Deise, o atual cenário também exigiu maior comprometimento dos responsáveis pelos estudantes. “Muitos pais começaram a perceber que teriam de se organizarem melhor na educação dos filhos. A pandemia forçou os pais a fazerem mais parceria com os professores no processo de aprendizagem. Se antes o acompanhamento vinha só na hora do dever de casa, com a pandemia, ele precisou ser ampliado”, pontua.
Ensino híbrido

Segundo o educador e desenvolvedor de plataformas educacionais George Balbino, o país deve migrar, já no próximo ano, para o modelo de ensino híbrido – metodologia que combina aprendizado on-line com o off-line. “Acredito que a pandemia irá se prorrogar e que a retomada da normalidade das escolas será lenta e gradual”, pontua.

“Como as dificuldades do ensino remoto e da aprendizagem não vão desaparecer, e com as lições aprendidas no primeiro lockdown, precisa ser construído um plano de resiliência. Até para que, caso ocorra cenário parecido em um futuro próximo, estejamos preparados e possamos mitigar esses impactos”, reforça.

E destaca: “O que seria da educação neste ano se não fosse o uso da tecnologia? É mais do que chegado o momento de a rede entender esse recado que foi dado e realmente partir para educação 2.0. Precisamos preparar os educadores para o que tem por vir”.

De acordo com o desenvolvedor, a tendência é a migração para uma modalidade em que o aluno é protagonista do próprio aprendizado.

“É preciso sair do modelo reinante, do livro e do professor presencial, para torná-lo protagonista e equipá-lo para exercer a plena cidadania. O ensino híbrido não é recente, existe há bastante tempo, mas muitas escolas só chegaram a essa modalidade de forma emergencial e tardia por causa da pandemia. É um formato que viabiliza eficácia de aprendizagem, em que o aluno não aprende na escola apenas. É um aprendizado que continua para além da sala de aula”, finaliza.

 



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